Falando sozinho
Ivo Santos Cardoso
Ele gesticulava, fazia gestos afirmativos e negativos com a cabeça, erguia a voz, sussurrava. A mão grudada ao ouvido parecia segurar o celular. Uma conversa animada ao telefone? Nada disso: o homem falava sozinho. Era um mendigo que delirava na grandeza de um celular imaginário.
Não são apenas os mendigos que cultivam esse hábito de dialogar com o vazio. Quantos você já viu assim na rua? Animados, contam histórias, reclamam, exaltam-se. Calam-se, como a ouvir o parceiro do diálogo imaginário.
“Ah, mas esses são doidos varridos ou estão no limite da razão...”, você dirá. Nem tanto. Sem fingidos espantos, responda honestamente: você nunca falou sozinho?
Eu já falei e sempre me considerei razoavelmente saudável. Lembro-me que atormentado pelos dias cinzentos de um penoso inverno novaiorquino, sozinho no apartamento, depois de um dia rodeado de vozes estranhas na rua, no mercado, no correio, no ônibus, no metrô, eu falava sozinho comigo mesmo e me fazia muito bem ouvir os sons na língua da “terrinha”.
Fico pensando nas razões porque as pessoas falam sozinhas. Deixando de lado as que se acompanham de fantasmas com quem alimentam animados diálogos, penso que as pessoas falam sozinhas tentando ouvir a voz interior, tantas vezes sufocada pelo apressado desespero da vida moderna; para sentir melhor a companhia de si próprias, afastados que vivemos de nós mesmos tantas vezes; para gravar melhor na memória algo que consideramos importante, convocando o sentido da audição como testemunha de nossos pensamentos. Ou talvez falemos sozinhos quando não temos com quem falar – seja porque estamos fisicamente distantes, seja porque não é seguro nem confiável dizer a outros o que encerramos na cabeça. Às vezes falar a outros o que está insondável dentro de nós pode ser considerado prova de maior loucura do que falar sozinhos. Vai saber...
E há os que merecem ficar “falando sozinhos”, expressão popular que reflete desprezo por alguém quando o discurso é considerado vazio, fora da realidade ou desagrada por contrariar nossos interesses. Há lugares em que a prática abominável é frequente. Um deles é no hospício. O outro, você sabe, fica no Planalto Central.
I
vo Santos Cardoso é editor de Vida Integral.