Anjos que intimidam e ferem
Conta a lenda que Miguel Angelo, ao passear com amigos, costumava apontar para as rochas que encontrava e dizia estar ouvindo apelos de anjos que pediam liberdade através de seu martelo e cinzel.
Depois de imortalizar suas visões artísticas e enriquecer o mundo o grande artista cumpriu seu tempo, fechou os ouvidos e seguiu o destino de todos os mortais. Os apelos de liberdade, contudo, continuam e podem ser ouvidos todos os dias, em todas as grandes cidades. Não vêm de blocos de mármore ou granito, nem de madeira ou ferro. Vêm desses meninos de rua, esse escárnio diário que ri de nossa cidadania, entra pelos olhos e violenta o coração. Que mês das crianças, que nada! Para esses anjos feridos nada muda a rotina de fome, fuga e medo.
Pobres anjos perdidos nos grandes centros, divino desperdício! Poetas, cientistas, pesquisadores, artistas, brilhantes profissionais de todas as áreas; bons pais, bons filhos, exemplares cidadãos. Todos perdidos de seus prováveis ideais. Extraviados, longe de realizar o intento da natureza que conspirou durante milhões de anos através de incontáveis gerações na busca das combinações perfeitas. Combinações que um dia modelassem esses meninos, por dentro e por fora, para fortalecer a espécie, para honrar essa maravilhosa sinfonia da vida.
Que sociedade decente pode dar-se ao luxo desse terrível desperdício? Quem são os culpados por essa traição à natureza? A família, a escola, os políticos, o governo, a sociedade. Você, eu. Todos nós. Que não nos vemos no espelho dessas faces encovadas, que não os consideramos tão natureza quanto nós.
Quando vejo autoriedades apresentando, orgulhosas, nossas favelas a ilustres visitantes estrangeiros sempre me pergunto: orgulho de quê? A insegurança, o forçado improviso da pobreza merecem luzes e orgulho? Vergonha, isso sim!
"Ah, excelência, estes são os meninos de rua. Veja como resistem ao hábito de cheirar cola e ainda têm forças para fugir quando ameaçados pela polícia!" Aparentemente estamos chegando a isso.
O que fazer? Ter consciência de que são pessoas pode ser o primeiro e mais importante passo.
E é urgente lembrar: vozes de anjos, quando não ouvidas, podem tornar-se brados e ordens que ferem e intimidam.
Ivo S. Cardoso é editor do jornal Vida Integral.