Bom mesmo é continuar vivo
Ivo Santos Cardoso
Imobilizada na cama, dependente de outros para satisfazer necessidades vitais, a personagem da novela exibida por um canal popular de televisão tem provocado muitos arrepios.
A maioria treme à ameaça de morte lenta, entrevados numa cama, vegetais humanos que perdem o viço diante do olhar piedoso e amedrontado de amigos e parentes.
Indagados sobre preferências e condições do último ato, as pessoas revelam o que imaginam ser melhor. “Bom seria morrer de repente”, pensam alguns. “Como um passarinho”, fantasiam outros. “Dormindo”, contribui um terceiro. A maioria esmagadora, no entanto, não importa como viva, acredita que melhor seria mesmo não morrer.
Cientistas de todos os países debruçam-se sobre livros e provetas em busca do prolongamento da vida. E vale tudo: improvisados síndicos do delicado edifício humano, trocam válvulas, limpam filtros, calibram a a máquina, fortalecem as fronteiras do corpo resguardando-o de inimigos externos. Às vezes trocam peças inteiras, desgastadas pela idade ou inutilizadas pelo mau uso.
O sonho agora é reproduzir órgãos, transformando laboratórios em fantásticas fábricas de peças de reposição, numa engenharia revolucionária antes impensável. A imaginação que antes entrava por esses caminhos e alimentava a produção de livros e filmes de mau gosto é hoje festejada como bendita mensageira de nova era nos domínios da medicina e da saúde. E, acredita-se, as fronteiras da vida e da morte recuam cada vez mais.
Mais importante que pensar na morte, contudo, é viver a vida. Da maneira mais plena possível, mais abrangente, mais significativa. Ativa, mas sem perder a reverência. Unindo, sempre que possível, bem estar íntimo que some alegria para os outros.
Ivo Santos Cardoso é editor-fundador de Vida Integral.