Por que o Haiti?
Ivo Santos Cardoso
A pergunta ecoa em todos os lugares. Um país tão pobre, já marcado pelas tragédias diárias da fome, da doença, da ignorância. Marginalizado pela grande maioria dos países que viram nele um dia perigoso convite à liberdade - considerada então um risco à economia dos patrões europeus - o Haiti até hoje paga o preço da ousadia.
As considerações, no entanto, vão além do terreno político, social e econômico. Teólogos e leigos de todas as denominações, que defendem a didática divina do sofrimento humano, talvez se tornem menos seguros em suas convicções radicais que atribuem exclusivamente a poderes do alto decisões finais nas ocorrências do mundinho humano – desde o golpe de sorte na loteca até a violenta sacudidura de um país miserável com insanas consequências.
O sofrimento é mesmo indispensável ao aperfeiçoamento? Será ele o doloroso desbaste de uma herança de maldade praticada em outras vidas? Dá para explicar isso a esta criança de mãos vazias e olhar parado? A esta mulher que não sabe onde encontrar um copo de água para a mãe moribunda?
Há também os que tem discurso na ponta da língua afiada e veem na tragédia os sinais do fim. Ou a ira do maligno. Lembro-me das crenças que me cercavam no lugar onde me criei, a centenas de quilômetros de Porto Alegre. Sexta feira santa não se podia fazer ruidosas estripulias, nem trabalhar, comprar ou vender, cortar lenha, buscar água no riacho. Nada. Era arriscado. Deus estava dormindo e o diabo vigiava qualquer inocente deslize para multiplicar tragédias, livre de reprimendas ou contenções. Fico pensando: em um país com tantas crendices, quantas crianças levarão pela vida afora a culpa ou a revolta pelo desastre que feriu seu país.
Os geólogos informaram que a dezenas de quilômetros no interior da terra, placas de peso e dimensões descomunais, escorregaram umas sobre as outras, deslocaram-se, ajustaram-se, moendo empecilhos, eliminando vazios continentais.
No interior da terra, formidáveis movimentos em busca de harmonia; na superfície esse horror indescritível de destruição e morte. Desarmonia num pedacinho pobre de terra chamado Haiti. Bola da vez, gente marzinalizada, pobre, discriminada. À margem da economia mundial.
A natureza é cega e obedece a leis sem dores na consciência ou palpitar do coração. O ser humano, privilegiado pelo desenvolvimento de leis morais, deve tirar pelo menos uma lição desta catástrofe: por que só agora a comoção universal, como se o país nascesse naquele dia fatídico? Antes não havia fome, não havia doenças que poderiam ser evitadas, com um pouco da fartura que as sociedades ricas jogam ao lixo?
Não impediria a catástrofe de hoje, mas proporcionaria melhor estrutura para suportá-la.
Ivo Santos Cardoso é editor do jornal Vida Integral.